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Agribela: sucesso no controle biológico rende resultados no campo

Por Agatha Zago/Revista Agrícola

Agribela, empresa londrinense idealizada pelos sócios Gabriela Vieira Silva e Luíz Guilherme Lira de Arruda, é considerada pioneira na era digital do controle biológico. Com a missão de tornar a agricultura mais eficiente, as propostas e ideias da organização visam oferecer equilíbrio ambiental, segurança e produtividade de qualidade para os produtores. 

Antes de pensar em ter seu próprio investimento, a bióloga e agrônoma Gabriela já demonstrava grande interesse por insetos que fazem parte do setor do agro. “Na graduação de biologia me encantei com eles. Fiz estágio em um laboratório de entomologia e trabalhava com a Cotesia flavipes, uma vespinha que controla a broca, uma lagarta que ataca a cana-de-açúcar. Foi aí que começou o interesse pelo controle biológico”, revela. O sonho de ter uma biofábrica guiou Gabriela no desenvolvimento de uma solução para um problema sério que a perturbava no processo de liberação desses insetos. “Me incomodava muito a maneira como era feito, com o uso de copos plásticos no meio das plantações”, relata a bióloga. 

Gabriela fez mestrado em Curitiba, na UTFPR, tendo parceria da Embrapa em seu estudo com a ciência da entomologia. Ela começou a trabalhar com pragas e inimigos naturais da cultura da soja e do milho. Foi na época do doutorado que ela estudou formas de melhorar a liberação de inimigos naturais, junto com o colega biólogo Luíz Arruda, que viria a se tornar seu sócio. No princípio, eles tiveram foco na cultura da cana-de-açúcar e desenvolveram uma cápsula que continha os insetos que combatiam as pragas na cultura. Com os primeiros testes feitos de forma empírica, os biólogos chegaram, depois de muito estudo, ao produto que tem hoje: o Biodrop. “Fizemos o depósito da patente em 2016 e em 2017 criamos a empresa. Com isso, apareceu a oportunidade com as startups e incubadoras. Meu sócio participou de uma equipe no Hackathon, que foi vencedora no evento. O envolvimento com essas iniciativas me levou a participar de um processo seletivo da Intuel, a Incubadora Internacional de Empresas de Base Tecnológica da Universidade Estadual de Londrina, e fui aprovada com a AgribelaA empresa foi constituída burocraticamente em julho de 2017”, conta Gabriela. 

 PARCERIAS 

 A empresária ressaltou a importância de estar inserida na incubadora, de ter tido apoio com a estrutura burocrática, jurídica e contábil para implementação da Agribela. “Tínhamos uma ideia legal, mas não entendíamos muito da parte burocrática. A incubadora deu uma base bem robusta para nós. Começamos a buscar investimento e hoje temos um sócio que é um investidor anjo, e aí sim, pudemos ir atrás de ideias para colocar nosso projeto em prática”, acrescenta a bióloga. 

Em outubro do 2017, a empresa participou de um processo seletivo do Pulse, Hub de Inovação da Raízen em Piracicaba, estado de São PauloFoi o primeiro processo seletivo deles e Agribela foi uma das empresas a ganhar a aceleração da empresa. 

“Estando dentro da Raízen começamos a validar o Biodrop para a cana-de-açúcar. Até o começo de 2018 fizemos testes em laboratório. Começamos com testes em pequenas áreas de campo até que, em 2019, fizemos três mil hectares na região de Jaú com o Biodrop. Como nossa sede era em Londrina, por questões estratégicas e pela demanda, direcionamos o produto para a parte de grãos, com soja e milho”, esclarece Gabriela. 

 IMPLANTAÇÃO 

 A bióloga conta que o controle biológico feito com auxílio da cápsula de Biodrop já foi implantado e os resultados dessa safra de soja 2019/2020 são excelentes. “Fizemos o manejo completo em duas propriedades, no distrito de Maravilha onde cobrimos a Fazenda São Gregório, que teve uma média de 74 sc/ha e em Apucarana, na Fazenda São Sebastião, produzimos 68 sc/ha. A produtividade foi boa e o custo por hectare se manteve dentro do esperado”, declara Gabriela.  

Com o Biodrop, a vespa, que varia de acordo com a cultura e a praga, é inserida dentro da cápsula feita de material biodegradável. Segundo a bióloga, para a soja é usado o Telenomos podisi, uma microvespa parasitoide que parasita o ovo do percevejo. Para a cana-de-açúcar é utilizado a Cotesia flavipes, que utiliza da lagarta. Para o milho foi liberado o uso do Trichogramma, que parasita os ovos da lagarta de cartucho. “Para a cultura da cana são necessárias 13 cápsulas por hectare. Na do milho e da soja varia de 24 a 28. Isso que é o interessante do Biodrop, ele vai se adequando a cada cultura. É uma ferramenta muito versátil, pode ser usado para qualquer cultura que tenha um macroorganismo para fazer o controle da praga”, aponta. 

A equipe da Agribela explica que fez uma parceria com a Simbiose, uma empresa de microbiológicos, para atender os clientes que sofriam com pragas que não possuem inimigos que possam ser combatidos com as vespas. “Precisamos ter um portfólio completo, então a Simbiose entra com o uso dos microbiológicos aonde as vespas não chegam. Nessa última safra de soja, fizemos o manejo na cultura usando os microbiológicos e os macrobiologicos, e deu muito certa essa mistura”, garante Gabriela.  

Para o milho safrinha de 2020, a empresa possui áreas menores de testes espalhadas pela região de Londrina e voltará a fazer cobertura da propriedade de Apucarana cobrindo 90 hectares e no distrito de Maravilha com 50 hectares. Elas já estão a três safras com utilização do biológico. “Estamos atuando, por enquanto, aqui no norte paranaense. Já fizemos as liberações, porque o período mais crítico do milho com as pragas é logo no começo do plantio. Estamos com resultados muito bons de controle e permanecemos monitorando”, menciona a bióloga. A empresa também está efetuando o controle biológico em uma propriedade de cana-de-açucar em Borecatu. 

 INOVAÇÃO 

 Mesmo comprovando a eficácia dos resultados do uso do controle biológico, a Agribela ainda enfrenta resistência por parte dos agricultores na hora da aplicação com o biológico. “Os produtores que aderem o controle biológico assim de cara são poucos. Tem certa hesitação, já que há anos usam o controle químico, que é calendarizado e já estão acostumados. Quando chega com controle biológico eles ficam com certo receio”, comenta Gabriela. 

A fundadora da empresa aproveitou para destacar que a Agribela recomenda o manejo integrado de pragas, dando prioridade para o controle biológico: “Não trabalhamos apenas com o controle biológico, fazemos a utilização dos produtos químicos também. Tivemos uma parte de área em que o ataque das lagartas subiu muito, então aplicamos um controle químico. Preconizamos o manejo integrado de pragas em sua base, priorizando o controle biológico, mas, se necessário, usamos o químico sem problema nenhum”, frisa. 

Segundo Gabriela, o grande objetivo do manejo integrado de pragas é manter as áreas em equilíbrio. “Nós conseguimos um equilíbrio ambiental e oferecemos segurança para os aplicadores. Isso já é uma grande conquista frente à utilização única do controle químico. No controle biológico conseguimos eficiência no controle das pragas, eliminamos menos inimigos naturais e, aqueles que não são mortos, ajudam no controle da doença, resultando em menor contaminação ambiental”, elucida a bióloga e agrônoma.  

Outro grande motivo que levou a idealizadora da Agribela a defender o controle biológico é a contaminação sofrida pelos trabalhadores rurais. “Atendemos uma família no oeste do Paraná que nos procuraram justamente porque tiveram três fortes contaminações e queriam diminuir os riscos para a saúde deles. Adotaram o controle biológico e mostraram satisfação com os resultados, já que o conjunto de práticas apresenta muitas vantagens”, reforça. 

 FUTURO DA EMPRESA 

 Mantendo o foco nas tecnologias biológicas, a Agribela participou e foi selecionada por um programa da Embrapa para alavancar as tecnologias se startups. A proposta é criar uma nova forma de amostragem de pragas. “Um grande problema hoje é o nível de ação/controle. Precisamos saber o número de pragas por hectare para fazer a aplicação do produto, mas não temos ferramentas viáveis para fazer a avaliação. Vamos desenvolver, junto a Embrapa, uma armadilha automática para o monitoramento tanto de percevejos quanto de lagartas, em um mesmo aparelhoÉ provável que, para a próxima safra, já tenhamos algo estruturado, mas deve estar disponível comercialmente para o produtor apenas na safra 2021/2022”, assegura Gabriela.  

 PIONEIRISMO 

 Agribela é pioneira em vários sentidos e a empresária Gabriela não considera o surgimento de novas empresas que lidem com produtos biológicos um avanço ruim. “Quando começamos em 2016, não tinha ninguém que fazia liberação aérea de Cotesia, nem outros tipos. Ficava só nos copinhos plásticos mesmo. Agora você encontra com facilidade cinco empresas que fazem esse tipo de serviço. Eles são sim concorrentes, mas acho bom que está tendo essa expansão no controle biológico. Demos um start e outras oportunidades surgiram, não conseguiríamos fazer tudo sozinhos. Até porque, se ninguém fizesse isso, até quando íamos continuar usando copinhos plásticos?”, finaliza a bióloga e agrônoma, Gabriela Vieira Silva. 

 

 

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